RockDisco – Cena de Cinema

Lobão é uma figura ímpar na história da música brasileira. Ele já passou por vários estilos, inclusive o nosso rock Brasil. Foi aos 17 anos que Lobão se juntou ao grupo Vímana, que tinha também Lulu Santos e Ritchie. Com o fim do grupo, Lobão passou a tocar bateria para grandes nomes da nossa música como Luis Melodia e Marina Lima. Foi um dos fundadores da Blitz e saiu da banda antes do grupo explodir com a música “Você não soube me amar”. Neste meio tempo, Lobão passou a compor e percebeu que ali tinha um disco. Gravado em uma fita K7, as músicas começaram a tocar na rádio Fluminense. Saindo da Blitz, a RCA “comprou seu projeto”, um álbum solo (o primeiro de Lobão) com o nome “Cena de cinema”. O disco foi lançado em novembro de 1982. Leia a baixo o comentário do Pedro Só, da Bizz, sobre o disco, publicado no blog Collectors Room:
“Em 1981, Lobão era apenas um baterista. Fazia parte de um grupo, Blitz, e ganhava como músico profissional tocando com uma jovem cantora (Marina) e com a banda Gang 90, que tinha recém-despontado para o Brasil num festival de … MPB! Lembrando hoje, ele compara: ‘O rock brasileiro era uma viagem na maionese’. Lobão compunha sem grandes pretensões, nunca havia pisado num palco como artista-solo e sequer imaginava como sua voz soaria gravada. Não tinha nem mesmo uma guitarra decente – precisou comprar uma Rickenbaker de Zé da Gaita para encarar a história.
Foi assim, na aventura, que ele entrou num estúdio carioca de oito canais para gravar, em sete dias, uma demo. Ação entre amigos: o parceiro Bernardo Vilhena, semi conhecido no Rio como poeta “marginal”; Lulu Santos e Ritchie – velhos colegas dos tempos de Vímana; o guitarrista Ricardo Barreto; o baixista Antonio Pedra e o tecladista William Forghieri, companheiros nas gigs com Marina,; mais a própria Marina. Inácio Machado, outro camarada, pagou a conta.
Entre os solos e as partes de guitarra de Lulu (“Squizotérica”) estão algumas das jóias do pop nacional dos anos 80. Lobão levou a coisa a sério: na hora de gravar os vocais de apoio da música-título, expulsou o inglês Jim Capaldi (ex-baterista do Traffic, casado com uma brasileira e figura fácil no Rio, na época) aos gritos de “sai daqui, xô!”. Motivo: o gringo queria entrar de bicão no coro duramente ensaiado.
Infelizmente, esse clássico só pôde ser ouvido mais de um ano depois, quando entrou na programação da rádio Fluminense FM. O trabalho na Blitz estava decolando, mas a banda não queria gravar as músicas de Lobão. O baterista, que havia sugerido a entrada de cantoras, pensando numa coisa “meio Frank Zappa”, andava decepcionado com “as vocalistas esganiçadas” e com os “novos rumos iê-iê-iê”. Levou a fita de Cena de Cinema e uma revista Isto É com a foto da Blitz na capa para uma reunião na RCA e pronto: não precisava gravar mais nada, aquela demo iria valer como disco.
A criatividade e espontaneidade presentes compensavam a precariedade técnica. A bateria, inusitadamente deixada para o final, foi gravada nos últimos 40 minutos do horário de estúdio. Marcelo Sussekind, que tocou baixo e trabalhou como técnico nas sessões, teve de registrar no esquema “o que foi, foi”. Com verve malandra Zona Sul (gatas, baganas manchadas de batom), bom humor e jovialidade, o repertório que foi sucesso no Circo Voador em históricos shows em 1983 ainda é relevante, acima de nostalgias barrigudas pelo sabor uêive dos sintetizadores.”
* Conheça as músicas do disco, mas não faça pirataria, compre o CD original!
Fabricio Mazocco

Fabricio Mazocco é jornalista, doutor em Ciência Política, professor universitário, fã de rock e criador do blog Rock 80 Brasil.

https://www.facebook.com/fabricio.mazocco

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