RockDisco – O Papa é Pop, dos Engenheiros do Hawaii

Por Emerson Rickenbacker, especial para o blog Rock 80 Brasil

Lançado em 1990, “O Papa é Pop” é o disco mais vendido dos Engenheiros do Hawaii. Fugindo um pouco da trilogia iniciada com as cores da bandeira do Rio Grande do Sul: amarelo (A Revolta dos Dândis – 1987), vermelho (Ouça o que eu digo: Não ouça ninguém – 1988) e verde (Várias Variáveis -1991), este é um disco gravado de forma acidental pela banda. “Gravamos 2 discos de forma acidental. Um ao vivo, Alívio Imediato e um de estúdio, ‘O Papa é Pop’. Neste último, resolvemos explorar todas as mazelas do pop. Mas ele tem pouca coisa a acrescentar ao som da banda”, resume Augusto Licks.
Surpresos com o sucesso da música “Era um Garoto que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones”, executada nos comícios do então candidato a presidência da república, Leonel Brizola, a banda resolveu gravar a versão feita pelos Incríveis. “Quando criança, adorava esta música. Ela foi razão de eu ter ganho o meu primeiro violão”, dizia Humberto Gessinger na época.
Com mais de 250 mil cópias vendidas, na época de seu lançamento, “O Papa é Pop” tem músicas presentes até hoje no setlist de Humberto Gessinger, como a faixa-título “Era um Garoto”, “Pra Ser Sincero” e “Perfeita Simetria”. Abaixo, um resumo das faixas (seguindo a ordem do vinil).

Lado Pop:
1 – O Papa É Pop
“No futuro, todas as pessoas terão 15 minutos de fama.” A frase de Andy Warhol pode resumir a faixa-título do 5º disco dos Engenheiros do Hawaii. Somos bombardeados, o tempo todo, por personagens buscando o pop. Sejam eles, o papa com a bandeira do Flamengo, um presidente buscando a reeleição, vestindo chapeú de cangaceiro e montando em um jegue ou mulher trocando de roupa no saguão de um aeroporto. Eternidades da semana. No encarte, ao final da letra, há um “sincero pedido de desculpas” a Lulu Santos. Em entrevista a um jornal,pouco antes do lançamento, Humberto Gessinger disse que não se via como entertainment. “Vejo o Lulu Santos como um entertainment. Aquilo que ele faz nos shows é entretenimento puro.” Lulu Santos soube desse comentário e chamou Gessinger de nazista em uma entrevista. Humberto explicou que, de maneira alguma quis menosprezar o cantor, e se dizia fã da forma como Lulu conduzia seus shows. Tudo em paz. Futuramente, Humberto até convidou Lulu para produzir um disco dos Engenheiros, o “Gessinger, Licks & Maltz”. Lulu teria topado, se ao receber a demo, a mesma já não tivesse a ordem das músicas e a capa desenhada. “Quando recebi a demo com essas informações, vi que o disco já estava pronto e não teria mais o que fazer ali.”

2- A Violência Travestida faz o seu trottoir
Propagandas nos manipulam todos os dias. Primeiro fazem um comercial com um caubói fumando e controlando cavalos selvagens. Anos mais tarde, ele aparece deitado em uma cama, terminal. Violentam a nossa inteligência, e ainda, pagamos por isso. Até quando?

3- Anoiteceu em POA
Difícil para um carioca resumir esta canção. São tantas citações. Tantas particularidades nessa música.
Mesmo que eu passe uma noite, bebendo uísque barato em Porto Alegre, não conseguiria ter a mesma visão que um porto-alegrense. A única coisa em comum, seria a ressaca no dia seguinte.

4 – Ilusão de Ótica
Mais um deboche em cima das “mensagens subliminares”, que existe em algumas letras da música pop. O pior, que até hoje, tenho que explicar isso a algumas pessoas. Não existe nada oculto na música. Ponha a cabeça pra funcionar, ou simplesmente, vire o encarte de cabeça pra baixo.

5 – O Exército de um homem só I
Fã assumido do escritor gaúcho, Moacyr Scliar, Gessinger letrou a música de Augusto Licks e fez uma das mais belas canções da banda. Somos um exército (de um homem só) nas batalhas de todos os dias, no ‘dificílimo’ exercício de viver em paz.

6 – Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones.
Odeio todas as versões desta música. A versão gravada neste disco é imaculada. Na verdade, não gosto do clima carnavalesco, como ela é cantada pelo público nos shows. Tá! Ela foi um dos singles e o hit responsável pela maior venda dos discos. Mas é uma música sobre um cara, que deixa tudo que ama para trás, e vai para uma guerra que não é dele. “Que cada um escolha a guerra aonde vai morrer.” (Gessinger, antes de tocar Era um Garoto, no Rock in Rio II).

7 – O Exército De Um Homem Só II
Humberto, já ciente do sucesso que seria “Era Um Garoto”, resolver fazer uma espécie de capa e contracapa, para ela. Então teve a ideia de fazer as partes I e II de Exército. A parte II fala sobre a nossa apatia. Somos quase livres, e poucas vezes nos damos conta disso.

8 – Nunca mais poder
Nos achamos tão modernos, mas vivemos revisitando o passado. Nos deslumbramos com o carrossel tático de Messi e cia, mas a Holanda já fazia o mesmo em 1974. Nessa última semana, lembrei da música, no dia da morte de Oscar Niemeyer. “Eterno como a coluna Prestes. As colunas do Niemeyer.” Bela jogada entre físico e o abstrato.

9 – Pra ser sincero
Quando o silêncio (da falta do que dizer),machuca mais do que mil palavras. Só quem já passou por isso, sabe como é.

10 – Olhos iguais aos seus
As pessoas fazem, as mesmas coisas, para serem diferentes. Ou não são elas mesmas, para serem populares.

11 – Perfeita simetria
A mesma melodia de “O Papa é Pop”, mas com ideia totalmente diferente. Só disponível em cassete e CD.

Fabricio Mazocco

Fabricio Mazocco é jornalista, doutor em Ciência Política, professor universitário, fã de rock e criador do blog Rock 80 Brasil.

https://www.facebook.com/fabricio.mazocco

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